Milho Flint e a produção de ração

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O milho Flint enquadra-se no grupo dos milhos de qualidade para consumo humano. O seu grão apresenta um endosperma vítreo dominante (textura dura ou córnea) e é normalmente de cor vermelho-alaranjado. A parte superior do grão (a oposta ao gérmen), não apresenta a fenda ou sulco geralmente observado no grão dentado.


Diferentemente do milho dentado, seu endosperma é duro nos lados e amiláceo no centro do grão, sendo um caráter poligênico. Este tipo de milho é o mais produzido no mundo e quanto mais dentado o grão, maior a quantidade de endosperma farináceo. É utilizado para alimentar gado e para elaborar féculas, xaropes, azeite e álcool.

O milho Flint é mais “duro” por ser rico em endosperma vítreo e com amido menos digestível (SANTOS et. al, 2011), sendo assim para que se otimize sua utilização, é necessário submeter os grãos a processamentos físicos e/ou químicos a fim de deixar o amido mais disponível, melhorando o seu aproveitamento pelo animal e pela microbiota ruminal.

Existem diferentes métodos de se processar os grãos de milho e segundo Hale (1973), esses métodos podem ser classificados como processamentos a seco, que consistem em quebrar, moer, laminar, tostar e peletizar, e processamentos úmidos onde os processos são flocular, explodir e cozer sob pressão. O segundo método irá promover a gelatinização do amido com o tratamento térmico que incorpora água ao grão e expande-o, fazendo com que se rompam as pontes de hidrogênio, aumentando assim a área de superfície do grão sujeita ao ataque dos micro-organismos e rompendo a matriz proteica do grão, o que aumenta a digestão do amido (THEURER et. al, 1999).

No Brasil, os processamentos mais utilizados são o de quebra e moagem fina do grão (OLIVEIRA e MILLEN, 2014), são procedimentos mecânicos que promovem apenas mudanças físicas na estrutura do grão. A floculação ainda é um método pouco utilizado, por ser um procedimento caro e que demanda alta tecnificação.  Outros métodos de processamento são a laminação, podendo ser a seco ou úmido, a ensilagem do grão úmido e a extrusão.

O método mais barato que temos hoje no Brasil é a moagem do milho juntamente com outras matérias primas, o que proporciona a ração farelada ao animal. Dentre todos os outros métodos que irei citar esse é o que confere a  menor taxa de absorção no animal, mas se compararmos às dietas quando é oferecido o grão inteiro, o ganho é de 8% de absorção pelos animais, quando o milho é moído há uma granulometria de 2-3 mm.

Outro processamento que vem sendo muito utilizado por donos de confinamento é o sistema de laminação do milho. Esse sistema tem um custo relativamente alto de implementação, pois envolve o processamento de cozimento do milho e seu achatamento assim que ele sai do sistema de cozimento. O cozimento é a gelatinização do amido presente nos grãos através da aplicação de calor e pressão.

Entretanto, o nível de “cozimento” da matéria-prima é totalmente dependente da quantidade de umidade, pressão e calor realmente obtidos no processamento. O grão laminado, normalmente recebe uma carga de vapor por 10 a 15 minutos com o objetivo de se aumentar a sua umidade para 12 a 14%. Então, o material é passado em um rolo espesso.

O grão floculado é tratado com vapor por 30 a 60 minutos em uma câmara vertical de vaporização. Este tratamento eleva a umidade do grão para algo em torno de  18 a 20%. Então, o material é laminado através da passagem em rolos.

Estudos têm sido conduzidos para comparar o aproveitamento de grãos moídos, floculados ou laminados pelo animal. Pesquisadores do Arizona conseguiram um incremento na produção das vacas em 2,2 kg de leite por animal/dia, quando eles alimentaram os animais com grãos de milho floculados, em relação aos que foram alimentados com grãos de milho laminados. Existem trabalhos que demonstraram que vacas tratadas com milho floculado produziram mais leite que os animais tratados com milho finamente moído. Entretanto, vale lembrar que normalmente o processo de floculação de grãos é muito mais caro que o processo de moagem fina dos mesmos.

Hoje no Brasil, o único fabricante dessa linha de processamento é a Ferraz Máquinas. Eles fabricam uma linha de processamento com produção de 3ton/h. Outra forma de aquisição é a importação desses equipamentos dos EUA e da Europa, o que tem sido feito por grandes confinadores do centro oeste brasileiro. Segundo eles a menor linha de processamento tem produção de 10 ton/h.

Alternativa para incrementar o aproveitamento do milho é a peletização e a extrusão do grão de milho. Entretanto, peletização e a extrusão são processos de alto custo energético no processamento do milho o que inviabiliza o uso em confinamento ou para alimentação de gado leiteiro.

Mas, já que estamos tocando neste assunto, vamos falar um pouco mais sobre a peletização que é indicada para a preparação de ração de outros animais. Principais razões de se peletizar um alimento é facilitar o seu manuseio. “Pellets” geralmente são mais facilmente transportados nas fazendas do que farelos e outras formas de apresentação dos insumos. Outro motivo comum para a realização da peletização é o incremento da palatabilidade dos alimentos. Este processamento pode ser especialmente importante em situações onde os grãos da dieta não são alimentados na forma de dieta total. Os “Pellets” auxiliam na redução da separação de ingredientes pelo animal. Eles também auxiliam no incremento da densidade energética das dietas. Isto é especialmente útil quando subprodutos fibrosos, tais como o farelo de trigo, são incluídos na alimentação dos animais. O calor de peletização também causa a redução dos níveis de toxinas que podem estar presentes nos grãos.

Grãos como a cevada e o trigo são rapidamente digeridos sem a necessidade de tratamento. O processo de cocção destes grãos pode gerar problemas de acidose nos animais mais facilidade que outros grãos que contêm diferentes tipos de amido.

A ensilagem de grãos contendo alta umidade (28 a 32%) causa o incremento da digestibilidade do amido que o compõe, através da quebra da sua estrutura proteica e ruptura da sua estrutura cristalina. Isso permite que a microbiota do rúmen penetre mais facilmente no grão e realize a digestão do amido.

Por causa da estrutura pouca cristalina do amido no milho úmido (MU), geralmente recomenda-se que o mesmo seja moído mais grosseiramente. O MU preparado com o grão finamente moído geralmente pode ser degradado rapidamente e causar quadros de acidose (clínica e subclínica). Entretanto, algumas propriedades trabalham com o MU fora dos níveis de umidade entre 28 a 32%, mais seco. Se a umidade estiver abaixo de 28 a 32%, o grão deve ser moído finamente.

Como a predominância no Brasil é de milho Flint, temos que nos atentar a esse melhoramento tecnológico que faz diferença no ganho de peso dos animais e na produção de leite. Hoje, com a introdução do milho OGM (Organismo Geneticamente Modificado) no mercado, já se consegue contornar um pouco essa situação de processamento, mas mesmo assim, quando chega esse tipo de milho nas fábricas, além de pensar no processamento, também é preciso atentar para os equipamentos, pois esse milho irá reduzir a vida útil de martelos, peneiras de moinho e matrizes de extrusora e peletizado entre outros.

O controle de qualidade da empresa deve sempre ficar atento ao tipo de matéria prima que está recebendo, fazer uma boa classificação do milho também é muito importante, pois esse tipo de milho pode provocar desgastes nos equipamentos por conta de sua dureza e ter um desempenho abaixo do esperado na nutrição dos animais.

Esp. Rafael Resende Silva
Engenheiro de Alimentos
Skype: eng.rafaelrs

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