A Argentina revive a tensão entre o campo e o governo

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de o país retornar à era de intervenção nos mercados agrícolas que marcou os governos do casal Kirchner, afastando-o das elites.

Um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo, a Argentina decidiu proibir a exportação de milho por dois meses para reequilibrar oferta e preço no mercado interno do produto, que integra várias cadeias alimentícias, como as de carnes e lácteos.

A medida, em um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, também desperta a preocupação das empresas globais que negociam grãos (tradings) com o que pode ser sinal de aumento do nacionalismo alimentar no mundo com os obstáculos causados pela pandemia.

Como a Argentina é o terceiro maior produtor de milho do mundo, o anúncio da medida, na última semana de 2020, tornou-se um fator para a valorização dos contratos futuros de grãos globais.

O governo argentino suspendeu os embarques de milho até 1º de março para obrigar agricultores a venderem para a pecuária local. A ideia é conter os custos da ração animal baseada no milho e, por sua vez, os preços das carnes bovina, suína, e de frango, além dos de ovos e leite em um país onde a inflação tem previsão de atingir 50% neste ano.

Instabilidade no setor

Em protesto, três das quatro principais associações agrícolas da Argentina recomendaram que seus membros iniciem amanhã uma greve de três dias, suspendendo as vendas de grãos no país até quarta-feira. A convocação aumenta a instabilidade no setor agrícola do país vizinho, que já enfrenta greves de trabalhadores portuários por melhores salários.

O presidente da Argentina, o peronista Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner, manteve a decisão justificando em entrevista a uma rádio na quarta-feira que é preciso dissociar os preços domésticos dos alimentos dos valores de exportação. Ele se referia ao aumento das exportações de grãos por causa da alta internacional, puxada principalmente pela recuperação da China, que provocou redução de oferta de alguns itens e alta nos preços, numa dinâmica similar à que aconteceu no Brasil no fim de 2020.

No entanto, uma reunião entre representantes do agronegócio com o ministro da Agricultura do país, Luis Bastera, na quinta-feira terminou com uma promessa do governo de reavaliar a medida diante do compromisso dos produtores de abastecer o mercado doméstico de milho. Os agricultores argentinos já enfrentaram esse tipo de intervenção antes. Segundo eles, é uma política contraproducente, pois restringe o investimento e o plantio e acaba levando à escassez, o que também tende à elevação de preço.

Temor de filme repetido

O setor está preocupado com a possível extensão da proibição, tanto do prazo quanto para outros produtos exportados, como trigo e carne bovina. Isso porque a última vez em que o partido peronista estava no poder, em boa parte das últimas duas décadas, as exportações foram restringidas por barreiras comerciais, impostos ou proibições de venda ao exterior. A produção de alimentos caiu e só se recuperou no governo de Mauricio Macri, antecessor de Fernández.

O atual presidente já havia contrariado o setor no fim de 2019, pouco depois de sua posse, ao elevar impostos sobre embarques de exportações. No entanto, o aumento das tarifas para grãos e carne bovina foi menor que o esperado, e as vendas para o exterior permaneceram nos níveis da era Macri. Mas os produtores dizem que isso pode mudar se o governo aprofundar o intervencionismo no setor. O Ministério da Agricultura da Argentina não quis comentar o tema.

“A intervenção em mercados transparentes cria incerteza entre os agricultores que atrasam as vendas e reduzem o plantio”, diz um comunicado da Câmara dos Exportadores e Processadores de Grãos (Ciara-Cec), cujos membros incluem grandes comerciantes de produtos agrícolas.

Fonte: O Sul

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