Antes de confinar, “socialize” os bois

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Permitir que os bovinos se acostumem aos seus pares e à vida de reclusão antes de serem confinados em baias de engorda favorece seu desempenho, pois eles já chegam adaptados ao cocho e sofrem menos estresse. Os benefícios dessa estratégia foram confirmados por um experimento conduzido, entre agosto e novembro de 2015, pela veterinária Janaína Braga (como parte de sua tese de doutorado), em parceria com os professores Mateus Paranhos da Costa, da Unesp-Jaboticabal, SP, e Fernanda Macitelli, da Universidade Federal de Mato Grosso, sua orientadora. Os três são integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Etco) e batizaram a adaptação pré-confinamento de “familiarização ampliada”, pois consideram que o animal deve ser “apresentado” não apenas ao cocho, mas também ao novo ambiente, à rotina de manejo e ao grupo social no qual será inserido.

“O confinamento contém vários agentes estressantes. É preciso ajudar os animais a enfrentar esses desafios, familiarizando-os à mudança de dieta (do capim para o concentrado), aos peões, ao vaivém dos veículos de trato e aos novos colegas”, diz Fernanda Macitelli. Não existe receita para essa “socialização” prévia. O manejo depende da realidade de cada fazenda, podendo variar de um simples agrupamento monitorado até o fornecimento da dieta de adaptação a pasto. “Algumas dessas estratégias exigem certo desembolso, porém bem menor do que o das diárias de confinamento, onde o produtor paga caro para adaptar seus animais”, salienta a pesquisadora.

Independentemente da estratégia adotada, o importante, segundo o coordenador do Etco, Mateus Paranhos, é que os animais fiquem juntos pelo menos 15-20 dias antes de ingressar nas instalações, tempo suficiente para que definam uma hierarquia social, ou seja, o papel e o espaço de cada indivíduo dentro do grupo. “Apresentar um boi previamente a seus futuros colegas de confinamento permite que eles estabeleçam essa hierarquia com menos estresse”, diz Janaína. Segundo ela, os animais familiarizados buscam o cocho assim que entram nas baias de confinamento, podendo até dispensar dietas de adaptação, o que encurta o período de engorda, enquanto aqueles que não passam por esse processo levam até três semanas para começar a consumir plenamente a ração. Alguns podem até refugar o cocho ou ficar doentes.

Delineamento da pesquisa – Para mensurar o efeito da “familiarização” sobre o desempenho dos animais confinados, os pesquisadores do Etco acompanharam 900 machos Nelore inteiros, de 30 meses de idade, na Fazenda Haras Itapajé, que fica em Rondonópolis, MT, e pertence ao produtor Raul Amaral Campos. Foram criados dois grupos de 450 cabeças, cada um subdividido em três lotes de 150 cabeças. Os animais destinados à familiarização foram pesados, vacinados, vermifugados e colocados em piquetes de oito hectares cada (533 m2/cabeça). Os pastos ainda tinham disponibilidade de capim, pois o trabalho foi feito no primeiro giro de engorda, no início da seca. Os pesquisadores respeitaram o protocolo de pré-adaptação da fazenda, que se assemelha a um semiconfinamento. Os três lotes, com peso médio inicial de 402 kg, foram suplementados durante 21 dias na proporção de 0,75% do peso vivo em concentrado (3 kg/cab/dia). Ganharam 800 g/cab/dia e entraram no confinamento com 419 kg.

Os outros três lotes de bovinos, que nunca haviam convivido juntos, passaram pelo mesmo processo sanitário e apartados pouco antes de entrar no confinamento, tendo de se socializar em piquetes de 2.000 m2 (espaço de 13,3 m2 por bovino). Os dois grupos em estudo foram acompanhados durante o período de engorda, com aferições de peso no 1º, no 21º e no 74º dias. Por já estarem acostumados aos companheiros e ao cocho, os bois familiarizados chegaram “turbinados” no confinamento, podendo receber ração mais energética. Por isso, nos primeiros 21 dias, ganharam 2,28kg/cab/dia, quase 1 kg a mais do que o grupo adaptado dentro das instalações, cujo ganho diário foi de apenas 1,32kg/cab (veja tabela). Nos 53 dias seguintes, os animais previamente familiarizados diminuíram a velocidade de engorda, provavelmente por já estarem se aproximando da fase de acabamento, e o grupo testemunha finalmente deslanchou, impulsionado também por efeitos compensatórios.

Ainda assim, os familiarizados ganharam 18 kg (0,6@ limpas) a mais no período estudado. Por já estarem sendo tratados antes do confinamento, foram abatidos 15 dias antes, com maior peso final, melhor acabamento de gordura e, consequentemente, maior rendimento de carcaça. A familiarização também reduziu o número de interações agonísticas (brigas) e sexuais, como tentativas de monta nos companheiros. Com isso, diminuíram os casos de lesões e enfermidades provocadas por estresse, que resultam em animais de fundo, os chamados “bois ladrões”. Segundo Fernanda Macitelli, quando machos são colocados em espaços restritivos sem prévia adaptação, alguns podem enfrentar situações dramáticas, pois não têm como fugir dos bovinos dominantes. “Muitas vezes, vemos esses animais perambulando junto à cerca, tentando escapar, o que pode provocar acidentes, lesões e até mesmo danos às instalações. Nossa preocupação é com o bem-estar dos animais, por questões éticas, mas respeitá-los geralmente traz ganhos econômicos para o produtor”, diz a professora.

Familiarização na prática – A familiarização de lotes de engorda pode ser adotada tanto em confinamentos quanto a pasto. Na Fazenda Haras Itapajé, que abriu as portas para a pesquisa do Etco, essa prática já é adotada com sucesso há oito anos. “Recebemos aqui cerca de 7.500 bois para engorda anualmente, vindos de outras propriedades do grupo, nos municípios de Itiquira e Pedra Preta, MT. Em minhas observações de campo, percebi que as brigas diminuíam quando eu separava os lotes no pasto antes de mandá-los para o confinamento, por isso decidi familiarizar previamente os lotes sempre que possível”, diz o gerente Hélio Abrão Gazzola, defensor desse tipo de manejo e de outras práticas recomendadas pelo professor Paranhos, que ele conheceu quando trabalhava nas Fazendas São Marcelo, em Tangará da Serra, MT, uma das pioneiras em manejo racional no país.

A Fazenda e Haras Itapajé engorda parte de seus animais (2.500 cabeças) em 620 ha de pasto. Quando os últimos bois são enviados para abate, em fins de junho, a área é aproveitada para familiarização dos animais destinados ao confinamento. Gazzola trabalha com lotes compostos por 153 machos de 370 kg, que ficam juntos por pelo menos três semanas seguidas, recebendo dieta de adaptação. “As agressões praticamente desaparecem. Mas se um boi escapa e vai parar em outro lote, pode ser agredido, tamanha é a unidade do grupo”, diz o gerente.

“Neste ano, adiamos a decisão de confinar por 60 dias. Quando o patrão decidiu fechar o gado, não tivemos tempo suficiente para fazer a adaptação e registramos 12 casos de refugo de cocho em 900 bois alojados. No ano passado, pré-adaptamos 5.000 animais e tivemos apenas dois casos”, compara. Além do bem-estar animal, Gazzola vê outro grande benefício na familiarização: a redução no custo de engorda, já que a suplementação a pasto é mais barata do que a dieta de confinamento (R$ 0,58 ante R$ 6/cab/dia).

Protocolo de familiarização

– Seja qual for a estratégia de familiarização adotada, os animais devem ser identificados, vacinados e vermifugados antes da formação do lote;

– Para adaptar os animais também ao trato, os piquetes devem ser munidos de bebedouros e cochos para suplementação;

– É fundamental ter água em quantidade e de qualidade para todos;

– A familiarização deve durar entre 15 e 20 dias;

– Após esse período, transferir os animais para o confinamento, respeitando-se a formação inicial do lote.

*Matéria originalmente publicada na edição 442 da Revista DBO. 

Fonte: Portal DBO

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