Carta de Pequim: A saga da China pela soja

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Uma análise das contradições chinesas na cadeia de produção da soja.

 

Concomitantes processos de urbanização, aumento da renda e a transformações de padrões de consumo e de estilo de vida na China têm contribuído para uma recente ocidentalização dos hábitos alimentares de sua população.  Embora cereais como arroz e trigo continuem sendo a base da dieta do país, o consumo de alimentos ricos em proteínas, gorduras e açúcar tem crescendo rapidamente.

Este fenômeno tem levado a um vertiginoso aumento da indústria chinesa de processamento e de carne, e por consequência, tem demandado crescente quantidade de recursos agrícolas.

Um dos principais grãos demandados pela próspera indústria chinesa é a soja. Além de ser ingrediente tradicional da alimentação asiática, a soja, após ser esmagada e separada do óleo, se transforma em componente elementar da ração animal.

Em busca de melhor acesso à soja, o governo chinês reduziu taxas de importação e demais barreiras antes mesmo da abertura comercial proveniente da adesão da China à OMC em 2001. A partir de então, o país se tornou o principal comprador mundial de soja, contando como principais provedores o Brasil, os Estados Unidos e a Argentina (Gale, 2015).

No entanto, com o crescimento das importações, produtores de soja chineses ficaram expostos à feroz competição global, o que levou à estagnação deste setor. Ao mesmo tempo, a indústria de processamento chinesa se encontrou cada vez mais a mercê das variações de preço do mercado internacional, coordenadas majoritariamente por transnacionais americanas. O momento mais emblemático deste embrulho foi entre 2004 e 2005, quando picos súbitos dos preços seguidos de momentos de depreciação, impossibilitaram empresas nacionais de cumprir seus contratos, o que levou à falência de grande parte delas e à sua transferência à mãos estrangeiras (Oliveira and Schneider, 2014).

A resposta do governo chinês a este novo cenário tem se dado em duas frentes: 1) A promoção da participação chinesa nas cadeias de valor global afim de garantir melhor acesso a recursos alimentícios e preços favoráveis; 2) A retomada do cultivo doméstico da soja afim de superar a dependência do país às importações, além evitar a desagregação social advinda da estagnação do setor.

A primeira questão se enquadra nos planos de internacionalização do da China iniciados já no início do século e ratificados com o novo projeto da Rota da Seda, a partir do qual empresas nacionais ganham maior incentivo do Estado para investir no exterior. Já a segunda questão diz respeito aos planos de modernização da agricultura de pequena escala anunciados pelo concelho de Estado, além da tradicional preocupação do governo chinês pela autossuficiência da soja e debais grãos.[1]

Mas enquanto a participação chinesa nas cadeias de valor global tem avançado, notadamente através de aquisições de transnacionais do agronegócio por grandes estatais chinesas,[2] o incremento da produção de soja na China anda a passos curtos.

O governo chinês não tem poupado esforços para proteger a produção doméstica. Como podemos notar na legislação referente a este tema, não é permitida nem a produção de soja transgênica nem a sua venda na forma de ingrediente alimentício para consumo direto na China. Assim, desenha-se uma segmentação de mercado na qual a soja transgênica vinda do exterior é destinada à produção de óleo e ração animal, ao passo que a soja não transgênica, majoritariamente nacional, ganha exclusividade nos demais nichos de mercado. No entanto, especialistas chineses revelam que grande parte da soja transgênica é processada como ingrediente alimentício e vendida ilegalmente no varejo. Como consequência, a dita segmentação de mercado não tem surtido efeito, e os preços da soja nacional tem variado em igual proporção aos da soja importada, trazendo instabilidade aos produtores locais (Yan et al., 2016; Zhou, 2015).

Outro mecanismo de proteção à soja nacional são os subsídios oferecidos pelo estado aos produtores chineses. Estes são os mais custosos entre todos os programas de subsídio agrícola na China, chegando a 4.500 RMB (moeda local, equivalente a aproximadamente 2.500 reais) por hectare de plantação. No entanto, de 2008, quando os primeiros subsídios foram implementados, até hoje, a produção de soja chinesa seguiu no mesmo patamar de 15 milhões de toneladas anuais, enquanto que as importações mais que dobraram, pulando de 41,1 milhões para 94 milhões de toneladas anuais (Jennifer, 2017; Ward and Nguema, 2018; Yan et al., 2016).

A ineficiência das medidas descritas acima revela que a liberalização da soja tem submetido os agricultores chineses a uma longa e custosa paralisação. Mesmo contando com o amparo do governo, produtores locais se encontram vulneráveis frente a competição internacional. Estes não têm aumentado a escala da produção como ocorre em outros grãos. A evidência disso são os custos de produção da soja, em patamar muito superior aos de milho, trigo e arroz (Yan et al., 2016).

Por outro lado, a frágil performance local contrasta com a exitosa expansão de certas empresas chinesas na cadeia global da soja. Esse é o caso da COFCO, que após a aquisição da holandesa Nidera e da asiática Noble, se tornou a terceira maior exportadora de soja no Brasil e a segunda maior na Argentina (Escher et al., 2018).

A partir deste contraste, podemos tirar três conclusões:

1) empresas chinesas não terão outra escolha que não investir no exterior afim de garantir melhor acesso ao fornecimento de soja. Não por acaso, grandes empresas chinesas inseridas em diferentes segmentos da cadeia da soja têm procurado aumentar sua participação na produção e na comercialização deste grão em países como o Brasil. Mesmo investidores que não haviam logrado êxito no passado, como a estatal Beidahuang, mantiveram representação comercial no Brasil e avaliam novas estratégias de investimento no país (Li, 2018);

2) Visto que empresas com capacidade de investir no exterior obtém melhor acesso à soja, essas mesmas empresas tendem a se sobressair no mercado em detrimento de empresas locais não internacionalizadas, o que contribui para uma reconfiguração da cadeia de produção na China, em direção a consolidação de monopólios transnacionais. Como podemos observar, em 2010, 16 empresas respondiam por um terço da ração animal na China, todas com produção acima de um milhão de toneladas (Sharma, 2014, extraído de Reuters, 2010). Três anos depois, a produção de ração já se concentrava nas mãos de 10 empresas (Gale, 2015), sendo que as principais delas são integradas às cadeias de produção globais, vide a cingapuriana Wilmar International, a já citada COFCO, a Jiusan Group, pertencente a Beidahuang, e a americana Bunge (“2017 nian zhongguo dadou yazha qiye channeng shiqiang [Top 10 crushing enterprises production capacity in 2017],” 2018).

3) Quanto maior a oferta de soja importada nos mercados chineses, mais custoso e inserto é o projeto de modernização e escalonamento da produção local. Instaura-se assim um ciclo vicioso em que a indústria chinesa se volta para canais de fornecimento estrangeiros, ampliando o acesso à soja importada no mercado chinês, deixando, assim, os produtores locais expostos à maior competição internacional, o que provoca mais empecilhos à produção agrícola chinesa e aumenta a dependência da indústria do país às cadeias de produção globais.

Referências:

2017 nian zhongguo dadou yazha qiye channeng shiqiang [Top 10 crushing enterprises production capacity in 2017] [WWW Document], 2018. . Finance.china. URL http://finance.sina.com.cn/money/future/agri/2018-03-22/doc-ifysntxp0445335.shtml

Escher, F., Wilkinson, J., Pereira, P., 2018. Causas e implicações dos investimentos chineses no agronegócio brasileiro. Coleção Relações Internacionais, Brasilia.

Gale, F., 2015. Development of China’s Feed Industry and Demand for Imported Commodities. Uniterd States Department of Agriculture.

Jennifer, C., 2017. GAIN Report (USDA – FAS No. CH17032), China’s Strong Demand for Oilseeds Continues to Drive Record Soybean Imports.

Li, H., 2018. Entrevista feita a um diretor de Planejamento de uma estatal chinesa do ramo do agronegócio.

Myers, M., Guo, J., 2015. CHINA’S AGRICULTURAL INVESTMENT IN LATIN AMERICA: The Dialogue – Leadership for the Americas 24.

Oliveira, G. de L.T., Schneider, M., 2014. The Politics of Flexing Soybeans in China and Brazil. ransnatTransnational Institute (TNI) Agrarian Justice Program 3.

Sharma, S., 2014. Global Meat Complex: The China Series The Need for Feed: China’s Demand for Industrialized Meat and Its Impacts. Institute for Agriculture and Trade Policy 40.

Ward, M., Nguema, A., 2018. Lower Soybean Imports in MY18/19, Despite U.S. Soybean Price Competitiveness (No. CH 18068). United States Department of Agriculture (USDA) Foreign Agricultural Service (FAS).

Yan, H., Chen, Y., Ku, H.B., 2016. China’s soybean crisis: the logic of modernization and its discontents. The Journal of Peasant Studies 43, 373–395.

Zhang, Q.F., 2015. Class Differentiation in Rural China: Dynamics of Accumulation, Commodification and State Intervention: Accumulation, Commodification and State Intervention. Journal of Agrarian Change 15, 338–365. https://doi.org/10.1111/joac.12120

Zhou, L., 2015. %u568%u7CB%uF1A%u59C%u401%u40E%u50F%u59C%u784%u7DE%u489——%u58D%u808%u527%u846%u571%u63A (Zhou Li: Competition between Agricultural Enterprises and Small Peasants – Further discussions on the Soybean Crisis) [WWW Document]. URL http://www.shiwuzq.com/portal.php

[1] Desde o período da Guerra-fria, a China têm estipulado metas de produção agrícola com vistas à autossuficiência alimentar. A soja é mencionada corriqueiramente nos documentos emitidos pelo governo referentes a esse tema (ver Myers and Guo, 2015).

[2] Este é o caso da Cinochem, que adquiriu a Syngenta, e da COFCO, que adquiriu a holandesa Nidera e a asiática Noble, se tornando, assim, a terceira maior exportadora de soja brasileira.

Tomaz Mefano Fares é Pesquisador doutorando em Desenvolvimento Agrário
SOAS, Universidade de Londres
Beijing, 08 de dezembro de 2018

Fonte: Carta Maior22

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