Computação pode mudar produção de alimentos, diz pesquisador do MIT

Com sistema que permite controlar variáveis de crescimento de planta, Caleb Harper pretende otimizar o futuro da comida.

Cultivar pés de tomate ou de manjericão como quem escreve um programa de computador, refinando variáveis até chegar à fórmula perfeita, em busca de alimentos mais nutritivos e mais rápidos de serem produzidos. É um bom jeito de se descrever o plano do americano Caleb Harper: vindo de uma família de agricultores, ele se formou arquiteto, mas hoje dedica seu tempo a pesquisar, dentro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), os “computadores de comida”.

São máquinas cheias de sensores, nas quais é possível simular infinitas condições climáticas, alterando temperatura, umidade ou nível de gás carbônico no ar, por exemplo. Com tamanhos que variam de uma caixa de 30 cm até um galpão inteiro, esses sistemas isolados permitem que pesquisadores entendam e repliquem digitalmente algo que os humanos fazem há milênios, muitas vezes intuitivamente ou lutando contra a natureza: plantar. “Imagine as possibilidades de ter a condição ideal para uma planta medicinal, ou ainda ter um tomate “do Peru” servido, fresco, em um restaurante em Detroit”, diz o americano.

Ainda é algo caro: um computador de comida de US$ 500, como os que Harper distribui para escolas, consegue cultivar um tomate por mês. Mas, garante o arquiteto, eles podem mudar o futuro da nossa alimentação. “Em alguns anos, será possível sequenciar o genoma de cada pessoa. Com os computadores de comida, poderemos produzir uma maçã especial para um indivíduo, comendo melhor e não apenas contando calorias, como se fôssemos máquinas”, diz Harper, que estará no Brasil para uma palestra no HSM Expo, evento que ocorre em São Paulo entre 5 e 7 de novembro.

O que são os computadores de comida?

Imagine uma pequena caixa, de 30 por 30 centímetros. Um ambiente controlado, cheio de sensores, no qual podemos determinar características como umidade, temperatura e nível de gás carbônico na atmosfera. Podemos simular diferentes climas existentes no mundo e, com eles, criar o que chamo de “receita”: isto é, um conjunto de combinações adequadas para fazer uma determinada planta crescer. Com muitos computadores de comida funcionando juntos, podemos gerar uma rede de conhecimento, sabendo como cada planta cresce e se adequa a diferentes climas. Hoje, temos computadores de comida pequenos, mas também unidades do tamanho de contêineres e galpões.

Como isso será útil?

Podemos usá-los para crescer plantas, de forma economicamente viável – pense na possibilidade de gerar as condições ideais para uma erva medicinal ou cosmética. Também podemos usar os computadores de comida para prever quais lugares do mundo são eficientes para certos tipos de cultivo. Temos uma parceria com a Ferrero, por exemplo, no qual simulamos em laboratório os climas da Argentina, da África do Sul e da Austrália. Com isso, conseguimos saber onde avelãs se desenvolvem melhor e onde a Ferrero pode comprar terrenos no futuro para manter sua produção em alta, mesmo com o aquecimento global. Além disso, no futuro, os computadores de comida poderão “aumentar” o valor nutricional do que comemos. Uma maçã vendida em qualquer mercado nos EUA tem 14 meses de idade, em média, da colheita à compra. Ela já perdeu 90% dos antioxidantes. Com os computadores de comida, poderemos reverter isso.

E como isso mudará nossa dieta no futuro?

Hoje, sequenciar o DNA de uma pessoa custa milhares de dólares. Em 2030, será muito barato. Assim, cada pessoa vai saber o que precisa realmente ter em sua dieta. Assim, poderemos desenhar, com ajuda dos computadores de comida, tipos específicos de alimentos – como uma maçã que alivia doenças cardíacas. Comeremos par sermos humanos melhores, não apenas contando calorias, como se fôssemos máquinas. Talvez os computadores de comida não consigam sozinhos, produzir toda a comida do mundo – mas o que fizerem será especial.

Por que estudar a produção de comida de forma digital?

Sou de uma família de agricultores do Kansas, mas como muitos jovens da minha geração, recebi o conselho para não seguir a carreira dos meus pais e participar da revolução tecnológica. Virei arquiteto e acabei desenhando servidores para a HP no Reino Unido. Nesse emprego, fui uma vez ao Japão, depois do desastre de Fukushima. Li uma manchete lá que dizia: a agricultura japonesa não tem mais dinheiro, jovens ou sequer um futuro. Fiquei impressionado. Acredito que hoje, na biologia, estamos vivendo uma época equivalente ao que foram os anos 1970 para computação. Vamos nos tornar capazes de redesenhar a biologia com ferramentas digitais, unindo tecnologias como inteligência artificial, análise de dados e robótica com o que já sabemos sobre agricultura há milênios.

Qual o custo de uma máquina dessas? Posso ter em casa?

Nós distribuímos alguns kits para escolas, avaliados em US$ 500, mas neles cresce apenas um tomate por mês. Hoje, seria caro demais ter um computador de comida em um restaurante. Mas estamos só no começo: creio que hoje vivemos, na biologia, uma época equivalente ao que foram os anos 1970 para computação. É como se fôssemos Steve Jobs e Bill Gates em suas garagens. No futuro, talvez, valha a pena ter um computador de comida em casa, plantando uma erva medicinal importante para você. Não estamos pensando em dinheiro: hoje, tudo o que fazemos está em código aberto, livre para qualquer pessoa. Se quisermos ganhar escala, precisamos colaborar. Foi o que aconteceu com a internet e o que a fez prosperar.

O que os chefs de cozinha pensam disso?

Há duas reações básicas. Um grupo acha que é incrível, pensando em ter tomates frescos do Peru dentro de um restaurante em Detroit. Os chefs estão sempre procurando novos sabores e jeitos de preparar a comida. A graça de uma receita pode ser sobre como a planta se desenvolve, e não só o tempero ou a forma de preparo. Por outro lado, há aqueles que dizem que isso não seria natural. Bem, a agricultura não é natural: há dez mil anos, os homens manipulam a natureza em seu interesse para plantar alimentos. O primeiro transgênico não foi criado nos anos 1970, mas sim quando começamos a domesticar plantas. Mas devo dizer que é muito divertido trabalhar com chefs, porque eles nos ajudam a difundir o que fazemos. Eles são considerados pessoas confiáveis, as pessoas não questionam sua integridade. E isso é ótimo.

Você veio de uma família agrícola e voltou para o campo. Não é algo comum. Como fazer para que os jovens se interesse pelo campo?

Essa é uma das minhas metas com esse projeto. O trabalho hoje no campo é duro e não se ganha muito. Os jovens querem participar de algo tecnológico, mais próximo de suas vidas. Acredito que o fazendeiro do futuro tem que ser alguém interessado com uma interface digital. Ele não vai ser só agricultor, vai ser um especialista em robótica, um cientista de dados para interpretar informações. É por isso que levamos os computadores de comida para escolas: com ele, as crianças podem aprender engenharia, química, biologia, programação, tudo junto, compartilhando suas experiências com outras crianças pela internet.

O Brasil é uma potência em agronegócio. Como vê nosso futuro no setor?

O Brasil é um país abençoado, com terras muito valiosas. Mas isso traz um perigo: a aquisição e exploração das terras de vocês por estrangeiros. Hoje, 80% das nações não conseguem gerar toda comida necessária para sua população dentro de suas fronteiras – elas são classificadas como “inseguras” alimentarmente pela OMS. O Brasil consegue, mas vai sofrer pressões. No futuro, se chegarmos a um cenário de crise alimentar, pode haver guerras. É por isso que acredito na importância dos computadores de comida: com eles, podemos aprender como usar cada solo da melhor forma, gerando “novas terras”. Quero que meu trabalho permita que cada vez mais países conheçam e construam seu clima para serem estáveis politicamente. Precisamos de democracias.

Para encerrar, qual é sua comida favorita?

Você me pôs numa saia justa: sou do Sul dos EUA e cresci como tal. Minha refeição favorita é de origem animal: um bom filé, com batatas e salada. Não é algo que dá para crescer dentro de um computador de comida, infelizmente (risos).

Fonte: Terra

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