Contaminação por Micotoxinas em rações brasileiras

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Recentemente, fazendo pesquisas de conteúdo para publicar no Portal, me deparei com uma reportagem no site Pet Food Magazine da Holanda informando que as rações Brasileiras são contaminadas com Micotoxinas. O texto retirado de um artigo no site acadêmico Wageningen Academic é justo ao fazer o alerta, porém o que me incomodou é que esse não é um problema somente do Brasil. Países da Europa e América do Norte possuem o mesmo problema de contaminação e os mesmo não foram relatados ou estudados.

Sob meu ponto de vista uma reportagem destorcida, baseada em um resumo de artigo científico, pode prejudicar um mercado que está em ampla expansão, uma vez que temos várias empresas Brasileiras fazendo exportação de ração pet para outros continentes entre eles Europa, Ásia, América Central, África e Oriente Médio. Segundo pesquisas as rações que possuem a maior taxa de contaminação por micotoxinas são as Ração de Combate fabricadas no Brasil e que conhecemos muito bem. São rações que não utilizam somente produtos nobres muitos deles utilizam resto de outros produtos alimentício para poder dar maior margem de lucro no preço final.

E esses produtos não são exportados, pelo contrário, eles ficam no Brasil para consumo interno. Infelizmente é somente no Brasil que existe a diferenciação de produto e isso ocorre em todos os setores da nossa economia, nos demais países todos os produtos são vendidos com o máximo de qualidade possível para que se possa garantir a qualidade e saúde do consumidor.

Sempre tive cachorros, e até hoje encontrei somente uma embalagem com problema de ração mofada. Gostaria que cada um puxasse na memória, nesse momento, se já teve esse tipo de problema e com que frequência. Outro questionamento vocês entraram em contato com a empresa que produziu a ração? É correto afirmar que a empresa garante a troca do produto ou devolve o dinheiro ao cliente. Temos várias formas de combater e prevenir esse problema. Das empresas que conheço, todas praticam pelo menos três ou quatro dos métodos de prevenção que descreverei mais adiante.

Primeiramente, para quem não sabe o que são micotoxinas, segue um resumo sobre histórico, definição, onde são encontradas, formas de contaminação e como preveni-las.

A história das micotoxinas começa em 1960, quando um surto de mortes inexplicáveis de aves (especialmente perus), no Reino Unido foi investigado. O surto ficou mundialmente conhecido como ‘turkey X disease’ (Perus x Doença). Chegaram à conclusão que o problema estava na ração, que havia sido feita com amendoim importado da África e do Brasil. Esse amendoim estava contaminado com uma substância fluorescente produzida pelo fungo Aspergillus flavus. Da expressão inglesa ‘A. flavus toxin’ derivou a palavra AFLATOXINA. Hoje se sabe que não existe somente uma aflatoxina, mas pelo menos 17 compostos tóxicos, sendo os mais importantes as aflatoxinas B1, G1, B2 e G2. Dessas, a aflatoxina B1 (AFB1) é considerada o agente natural mais carcinogênico que se conhece. Por conta disso e pela prevalência deste fungo (e de outras espécies produtoras) em nosso meio, é a mais importante micotoxina no Brasil. É importante lembrar que, a partir de 1962, quando se estabeleceu as causas do surto, pesquisas subsequentes encontraram outros fungos produtores de substâncias tóxicas diferentes.

Principais substratos Principais fungos produtores Principal toxina Efeitos
Amendoim, milho. Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus Aflatoxina B1 Hepatotóxica, nefrotóxica, carcinogênica.
Trigo, aveia, cevada, milho e arroz. Penicillium citrinum Citrinina Nefrotóxica para suínos
Centeio e grãos em geral. Claviceps purpurea Ergotamina Gangrena de extremidades ou convulsões
Milho Fusarium verticillioides Fumonisinas Câncer de esôfago
Cevada, café, vinho. Aspergillus ochraceus e

Aspergillus carbonarius

Ocratoxina Hepatotóxica, nefrotóxica, carcinogênica.
Frutas e sucos de frutas Penicillium expansum e Penicillium griseofulvum Patulina Toxicidade vagamente estabelecida
Milho, cevada, aveia, trigo, centeio. Fusarium sp

Myrothecium sp

Stachybotrys sp

Trichothecium sp

Tricotecenos:

T2, neosolaniol, fusanona x, nivalenol, deoxivalenol.

Hemorragias, vômitos, dermatites.
Cereais Fusarium graminearum Zearalenona Baixa toxicidade; síndrome de masculinização e feminização em suínos.

O crescimento fúngico e formação de micotoxinas dependem de uma série de fatores, como a umidade, temperatura, presença de Oxigênio, tempo para o crescimento fúngico, constituição do substrato, lesões à integridade dos grãos causados por insetos ou dano mecânico/térmico, quantidade de inoculo fúngico, bem como a interação/competição entre as linhagens fúngicas. As características genéticas representam um fator cada vez mais decisivo na solução do problema. Esta gama de fatores demonstra que o controle dos mesmos, no sentido de prevenção, muitas vezes se torna muito difícil devida nossas condições tropicais. As condições climáticas brasileiras no período de colheita dos cereais, em função do regime pluviométrico, não favorecem a secagem dos grãos, como exemplo, temos o milho.

Os sistemas de secagem e armazenagem instalados também contribuem para a evolução do problema em nossas condições. As temperaturas da massa de grãos no interior dos silos em muitas situações ultrapassam os 18°C recomendados, permitindo um crescimento fúngico intenso. Isso acontece, especialmente pela deficiente aeração forçada da maioria das unidades armazenadoras, que mesmo existindo, não são efetivas no controle dos pontos de calor dentro do silo. Essa e muitas outras razões proporcionam alta prevalência de micotoxinas como as aflatoxinas como contaminantes rotineiros dos cereais no Brasil e em países de clima similar.

Hoje é possível controlar e também reduzir o nível de contaminação graças às boas práticas agrícolas, utilizando agentes antifúngicos, apoiando nas pesquisas da engenharia genética e tendo um maior controle sobre o armazenamento deste grão, verificando temperatura e umidade de armazenamento e checando a temperatura interna dos silos de armazenagem.

Por último deve-se fazer a destoxificação da matéria prima, a descontaminação após a produção de micotoxinas, tratamento pós-colheita para remover, destruir ou reduzir o efeito tóxico. É difícil impedir a formação de micotoxinas no campo ou na estocagem, entretanto, o monitoramento poderia impedir que as micotoxinas se tornassem uma significativa fonte de riscos à saúde, pois o conhecimento da contaminação permitiria a adoção de medidas estratégicas para minimizar o risco. Estratégias adotadas na pré ou pós-colheita seriam apropriadas e dependeriam principalmente das condições climáticas de cada ano em particular. Compreender os fatores ambientais que promovem a infecção, crescimento e produção tóxica são um passo importante para um plano efetivo que vise minimizar a ocorrência de micotoxinas em alimentos e em rações.

A F.A.O. (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) instituiu uma série de critérios para determinar se o processo de descontaminação pode ser aceito, o qual deve:

– destruir, inativar ou eliminar a toxina;

– não produzir resíduos tóxicos ou carcinogênicos nos produtos finais, ou em alimentos obtidos a partir de animais que se alimentaram de uma dieta detoxificada;

– manter o valor nutritivo e a aceitabilidade do produto;

– não alterar as propriedades tecnológicas importantes de forma significativa;

– destruir todos os esporos e micélios fúngicos para que não possam, em condições favoráveis, proliferar e produzir novas micotoxinas.

Existem vários sistemas usados para a desativação da toxina, relatarei abaixo as mais utilizadas nas fábricas de ração para que não se estenda muito o artigo.

Uma vez que a matéria prima é recebida nas fábricas de ração temos várias formas de fazer a separação de alimentos contaminados.

  1. Mecânica: Mecanicamente podemos utilizar a pré-limpeza e peneiras rotativas para separar produtos que estão contaminados, esses produtos podem chegar na empresa todos aglomerados ou com tamanho do grão fora do padrão sendo facilmente captados pela limpeza mecânica e nas fabricas de ração.

 

 

 

 

 

 

 

2. Eletronicamente: Hoje existem no mercado dois equipamentos capazes de fazer a separação de produtos que estão fora do padrão.

a)Seleção óptica: São câmeras de alta resolução projetadas e construídas com sensores de alta resolução óptica, capazes de detectar defeitos a partir de 0.3mm. Quando combinadas com a iluminação a LED, a selecionadora pode detectar e rejeitar quaisquer tipos de defeitos de cores visíveis. Os novos vibradores de alimentação com grande capacidade de vazão possuem novos controles eletrônicos individuais para manter a estabilidade da alimentação e o fluxo de produto constante e uniforme. Utilizando o sistema inteligente, a quantidade de ar comprimido lançado pelas válvulas ejetoras, de acordo com o tamanho dos defeitos detectados, economiza ar comprimido e energia elétrica e diminui a quantidade de grãos bons, na saída do produto rejeitado.

b) NIR (Espectrofotômetro de Infravermelho Próximo): O equipamento conhecido como NIR (Near Infrared Reflectance), faz análises em apenas seis segundos, revelando o nível de proteína, fibra, gordura, matéria seca e matéria mineral, elementos que conferem qualidade aos grãos. Quando o grão está contaminado por uma micotoxina apresentando um bolor, ou quando ele está quebrado e apresenta risco eminente de contaminação da ração animal esse equipamento faz uma separação desse lote de produto que pode estar contaminado não deixando os grãos bons se misturar com os ruins. Apesar de ter um custo de implantação por volta de R$ 250 mil, empresas que têm implantado esse equipamento conseguiu viabilizar a compra do mesmo em um curto período de tempo.

 

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3. Fornecedores: Escolha fornecedores idôneos, que possuam certificados de qualidade do produto. Algumas vezes o produto é um pouco mais caro, todavia fornecerá um produto que corresponderá à sua expectativa e garantirá noites de sono tranquilas.

4. Atividade de água: A atividade de água de uma ração deve estar entre 0,60 e 0,65, com esses valores e associando a umidade a 10%, podemos garantir que não haverá água disponível para gerar bolores dentro do saco de ração e consequentemente causar uma contaminação do produto por micotoxina.

5. Secadores e Resfriadores: Tenha sempre esses dois equipamentos muito bem regulados para que atinja a umidade abaixo de 10% e ao resfriar que ele retire o produto com uma temperatura próxima ou abaixo da ambiente, para evitar a formação de condensado dentro da embalagem e com isso evitar a recontaminação do produto.

6. Adsorventes: Estas substâncias funcionam como agentes sequestrantes de micotoxinas, evitando sua absorção no intestino dos animais, impossibilitando a sua distribuição para outros órgãos. Atualmente, os principais tipos de adsorventes são: aluminossilicato de cálcio e sódio hidratado, carvão ativado, colestiramina, glucomanano e argila, dentre outros. Existem disponíveis diversas opções de adsorventes de micotoxinas no mercado. Cada produto combate um ou mais tipos de micotoxinas que afetam a alimentação animal, como aflatoxinas, Fumonisinas e Zearalenona, por exemplo. Existem várias empresas no mercado que fornecem esse tipo de produto.

Como os fatores que predispõem o surgimento de fungos produtores de micotoxinas são amplos e podem surgir em diversas fases de produção, falhas podem ocorrer. Diante disso, medidas podem ser utilizadas diretamente nas rações para minimizar possíveis danos aos animais. Atualmente, o método mais utilizado é incorporar aditivos adsorventes de micotoxinas nas dietas. Basicamente, a função de um adsorvente de micotoxinas é fixar-se à dieta e carregá-las para fora do animal, evitando que sejam absorvidas ou que sua absorção seja reduzida no trato gastrointestinal, minimizando possíveis danos.

Lembrando que as micotoxinas são muito resistentes ao calor, suportando até 200°C, sua atividade tóxica persiste por um longo tempo nos alimentos, mesmo após o desaparecimento dos bolores. É bom ressaltar que a peletização e extrusão não degradam esse tipo de contaminante. As micotoxinas ficam dentro do Kibble/Pellet de ração inativo esperando as condições ideais para poder se ativar e causar algum dano ao animal que irá se alimentar da ração.

Por ultimo gostaria de lembrar que as micotoxinas é um problema mundial, o que foi relatado na revista que citei no começo deste texto foi um sensacionalismo sem medida. Apesar do esclarecimento de muitos esse tipo de artigo pode causar uma má impressão sobre os produtos brasileiros. As rações produzidas no Brasil que tem sido exportadas, têm apresentado padrões de qualidade altos sendo até equiparados a produtos Norte Americano e Europeu.

Bibliografia:

Portal R2S – Micotoxinas na produção de suínos – por Diego Duran Araújo. Disponivel em: <http://portalr2s.com.br/?p=1327>. Acesso em 07 de Novembro de 2017.

Wagningen Academic – Safety of low and high cost dry feed intended for dogs in Brazil concerning fumosins, zearalenone and aflatoxins. Disponivel em: <http://www.wageningenacademic.com/doi/pdf/10.3920/WMJ2016.2166> Acesso em 07 de Novembro de 2017

Pet Food MagazineMycotoxinen in Braziliaans hondenvoer onderzocht. Disponivel em: < https://www.petfoodmagazine.nl/4835/mycotoxinen-braziliaans-hondenvoer-onderzocht/>. Acesso em 07 de Novembro de 2017.

Revista Brasileira de Higiene e Sanidade Animal – Avaliação química e microbiológica das rações secas para cães e gatos adultos comercializadas a granel. Disponível em: <http://www.higieneanimal.ufc.br/seer/index.php/higieneanimal/article/view/304/1528>. Acesso em 07 de Novembro de 2017.

Pet Food Industry – Higher micotoxin risk in US corn pet food ingredients now. disponivel em:  <http://www.petfoodindustry.com/articles/6274-higher-mycotoxin-risk-in-us-corn-pet-food-ingredients-now> . Acesso em 07 de Novembro de 2017.

Dog Naturally – Corn and Dog Food: Aflatoxins and Mycotoxins. Disponivel em: <http://www.dogsnaturallymagazine.com/corn-and-your-dog-secrets-food-companies-dont-want-you-to-know-about/>. Acesso em 07 de Novembro de 2017.

Pet Food Industry – Mycotoxin and Pet Food. Disponivel em: <http://www.petfoodindustry.com/articles/591-mycotoxins-petfood>. Acesso em 07 de Novembro de 2017.

Rafael Resende Silva
Engenheiro de Alimentos

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