Fábrica de carne premium – Parte IV – Rotacionado diferente

Produtor mato-grossense abandona mercado de commodity e se dedica à produção de animais “sob medida”

Bebedouro não fica na área de lazer, mas na divisa dos piquetes. Foto: Pantanal Filmes.

Por Maristela Franco

Leia as outras partes em:

Fábrica de carne premium – Parte I
Fábrica de carne premium – Parte II – Pilares do Projeto
Fábrica de carne premium – Parte III – Castração

Apesar dos investimentos em suplementação, a Fazenda Serrinha continua tendo o pasto como principal componente da dieta. Os animais cruzados, por exemplo, comem somente ponta de capim. Entre 600 e 900 fêmeas são recriadas em um módulo rotacionado de 80 ha, área menor do que a dos machos, porque elas logo atingem os 300 kg exigidos para entrada na terminação (giram rápido). Já os garrotes são concentrados em um grande módulo de rotacionado, que ocupa 230 ha, subdividido em 10 piquetes de 23 ha cada. Formado com mombaça (80%) e braquiária (20%), ele foi projetado pelo agrônomo Leopoldo Oliveira dos Reis, da empresa Voitec – Tecnologia em Voisin, de Bagé, RS, que também é instrutor do Serviço de Aprendizagem Rural (Senar). O projeto é totalmente setorizado. Foi montado em local mais afastado, no extremo norte da fazenda, para evitar contato dos machos com as matrizes, pois, à época, eles eram castrados somente ao final da recria, já na puberdade. Somente no final do ano passado, Silveira começou a castrá-los ao nascimento.

Por ocasião da visita de DBO, em fevereiro passado, o módulo abrigava um único lote de 1.010 novilhos, mas a meta é nela rotacionar 2.000 machos. Como o lote é grande, Reis projetou as instalações, junto com Silveira, para que os animais não precisassem caminhar muito em busca de suplemento e água. O módulo possui três áreas de lazer munidas de cochos cobertos, feitos para durar a vida inteira (veja abaixo). Os animais usam a praça mais próxima do piquete que estão pastejando. Essa estrutura também possibilita dividir o módulo em três, caso seja necessário trabalhar com mais lotes. Os bebedouros ficam fora da área de lazer. Eles foram distribuídos estrategicamente, de três em três, na divisa de alguns piquetes, para facilitar a dessedentação, conforme mostra a ilustração. “Não pode faltar água de qualidade para os animais”, salienta o produtor, que construiu um reservatório de 500.000 litros para abastecer 15 bebedouros de 7.000 l cada.

Redenção da cerca elétrica

O projeto de rotacionado dos machos é relativamente novo. Silveira conheceu Reis, em 2016, após visitar um projeto orientado por ele, a Estância Ana Paula, em Aceguá, no Uruguai. “São 5.500 ha divididos em piquetes de 2 ha cada, formando uma malha perfeita, tudo com cerca elétrica e tudo funcionando com perfeição”, relata o pecuarista, que, a partir daí, decidiu apostar para valer na eletrificação, apesar das opiniões contrárias. “Conhece aquela história do peixe sem cabeça que a mulher fazia porque a mãe dela preparava assim, a avó, a bisavó, sem que ninguém soubesse por quê? É a mesma coisa com a cerca elétrica. Repetem que ela não funciona, sem questionar o que fizeram errado lá atrás”, exemplifica. Segundo Silveira, somente a cerca elétrica segura os animais Angus. “Se fossem inteiros, talvez nem ela segurasse; são terríveis. Faço castração também por isso. Como eu daria conta de 2.000 machos inteiros em uma fazenda com 4.000 vacas e 2.000 novilhas entrando em serviço?”.

la história do peixe sem cabeça que a mulher fazia porque a mãe dela preparava assim, a avó, a bisavó, sem que ninguém soubesse por quê? É a mesma coisa com a cerca elétrica. Repetem que ela não funciona, sem questionar o que fizeram errado lá atrás”, exemplifica. Segundo Silveira, somente a cerca elétrica segura os animais Angus. “Se fossem inteiros, talvez nem ela segurasse; são terríveis. Faço castração também por isso. Como eu daria conta de 2.000 machos inteiros em uma fazenda com 4.000 vacas e 2.000 novilhas entrando em serviço?”.

O projeto de rotacionado intensivo tem viabilizado a compra de bezerros cruzados para ajustar (ou aumentar) a oferta mensal de animais (veja quadro sobre parceiros). Na seca, os animais são terminados em confinamento, recebendo ração à base de silagem de milho, farelos de milho, sorgo e soja, mais núcleo mineral. Nas águas, engordam em semiconfinamento, muitas vezes em lotes misturados de fêmeas com machos, já que estes são castrados. Para dar maior impulso aos pastos na entrada das águas, Leopoldo Reis recomendou roçar aqueles que têm maior dificuldade de rebrota. Muitos técnicos consideram essa prática um indicador de erro no manejo, mas o agrônomo gaúcho pensa diferente. Segundo ele, no Centro-Oeste, as gramíneas demoram muito a rebrotar porque ficam cheias de folhas amarelas provenientes da seca e gastam carbono para eliminá-las, antes de emitir folhas novas. “Ao roçar, liberamos o capim para a rebrota e ainda incorporamos matéria orgânica ao solo. Na sequência, adubamos. Com isso, antecipamos bastante o pastejo e damos novo fôlego ao capim”, frisa o consultor.

Reforma com agricultura

Outra medida importante tomada por Silveira foi reformar pastos degradados com ajuda da lavoura. Nesta safra, ele cultivou 286 ha de milho para silagem, dos quais 60 ha foram tomados emprestados do módulo de rotacionado dos machos. Neste verão, o lote rodou em apenas oito de seus 10 piquetes, ou seja, ficou em 170 ha, com lotação de 4,4 UA/ha. Depois da colheita do milho, esses 60 ha foram semeados com mombaça e convert, voltando a integrar o módulo, que deverá ganhar mais dois piquetes em breve, totalizando 12. “Nossa proposta é ir mudando as áreas de plantio de milho, para recuperar toda a fazenda a custo baixo. O capim aproveita a adubação residual da lavoura. Basta aplicar um dessecante, dar uma nivelada para incorporação da matéria orgânica, e semear o capim em plantio direto”, afirma o produtor.

Nas áreas reformadas, quando há sobra de forragem, faz-se feno. “Devemos produzir, neste ano, entre 2.500 a 3.000 t, em uma área de mombaça. Os fardos são fornecidos a pasto, na seca, para as vacas em reprodução”, explica Silveira, que chegou a pensar em fazer lavoura de soja na fazenda, mas concluiu que a pecuária profissionalizada, no mesmo nível da agricultura, era um negócio mais seguro e talvez mais lucrativo, além de exigir menos investimento. “O custo de plantio da soja, hoje, é de US$ 2000/ha. Se eu aplicar US$ 1.000/ha na pecuária, vai chover boi”, diz o produtor, que quer faturar R$ 15 milhões/ano somente com pecuária. Esse número será atingido com intensificação contínua e agregação de valor ao produto. “Para conseguirmos esse faturamento vendendo fêmea a R$ 125/@, precisaríamos de 7.272 cabeças, enquanto vendendo a R$ 150/@, bastam 5.550 animais, 2.200 a menos. A estrutura e o custo fixo são os mesmos se eu faturar R$ 5 milhões ou R$ 15 milhões. Não tem saída, tem de agregar valor”, defende.


Parceiros ajudam a equacionar a oferta

Para ampliar suas vendas de cruzados para nichos de carne Premium, Carlos Miguel da Silveira conta com pelo menos cinco parceiros féis, que lhe fornecem bezerros desmamados ou garrotes no padrão desejado. Um deles é Cleudemir Fávaro, proprietário das Fazendas Luar do Pontal, em Alto Paraguai, e Serra Azul, em Rosário do Oeste, ambas no Mato Grosso. Toda a produção de bezerros cruzados da segunda propriedade é vendida para Silveira. “Devemos fornecer 500 animais ao Miguel neste ano, mas em 2019 serão 1.000”, informa Fávaro, que faz IATF em 100% das matrizes e utiliza ferramentas como o pastejo voisin e a suplementação a pasto para produzir animais de melhor padrão.

Segundo ele, o mercado de carne premium valoriza quem investe em tecnologia. Para atingir sua meta de abater 400 bovinos cruzados/mês, Silveira terá de comprar pelo menos 1.800 animais por ano (150/mês), já que pretende produzir outros 3.000. Em 2017, somente no segundo semestre, já comprou 1.682 cabeças. Como troca muita informação com o parceiros, Silveira procura auxiliá-los, sempre que possível, em questões como manejo alimentar, genética e sanidade, para que lhe forneçam bezerros padronizados, vendidos por quilo. “Nosso objetivo é comprar sempre produção boa”, diz.

*Matéria originalmente publicada na edição 450 da Revista DBO.

Fonte: Portal DBO

 

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