Há 20 anos sem milho suficiente para abastecer indústrias, RS paga alto custo

Falta do cereal no Estado faz com que indústrias de carnes paguem no mínimo 10% a mais pelo grão. Situação também reduz arrecadação de ICMS em até R$ 150 milhões anuais.

Elisangela Porto / Especial
Estado colherá em torno de 5 milhões de toneladas nesta safra, segundo a EmaterElisangela Porto / Especial

Sem milho suficiente para atender à demanda estadual há praticamente duas décadas, mesmo período em que o Brasil tornou-se um dos maiores produtores e exportadores mundiais do cereal, o Rio Grande do Sul vem pagando um custo alto. Para alimentar aves e suínos, indústrias instaladas no Estado gastam no mínimo 10% a mais do que as concorrentes. A necessidade de buscar quase 2 milhões de toneladas do cereal no Paraná e no Centro-Oeste faz com que os cofres públicos gaúchos deixem de arrecadar entre R$ 130 milhões e R$ 150 milhões em ICMS por ano.

A pedido das indústrias, que vêm perdendo posições no ranking nacional de produção, o governo gaúcho promete apresentar nas próximas semanas proposta de fomento à cultura.

— O governador pediu que fossem feitos estudos. A ideia é desenvolver política com foco na irrigação, abordando também a questão do licenciamento. É um caminho na busca pela autossuficiência — explica o secretário da Agricultura, Covatti Filho.

Com consumo médio de 6,5 milhões de toneladas ao ano, o Estado colherá nesta safra ao redor de 5 milhões de toneladas, segundo a Emater.

— O percentual médio de consumo do cereal vem crescendo de 3% a 4% a cada ano, na contramão da safra gaúcha de milho, que perdeu espaço até chegar à menor área da história — destaca Rogério Kerber, diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Estado (Sips).

Embora a insuficiência date do começo dos anos 2000, foi a partir de 2010 que o milho passou a ter queda livre e cedeu terreno para a soja — commodity com preço superior.

— A questão do abastecimento está cada vez mais complicada, ainda mais com a tabela do frete. Precisamos quebrar velhos paradigmas para buscar novas soluções —destaca Nestor Freiberger, presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

A saca de milho trazida de Mato Grosso, maior produtor nacional do cereal, é comprada em média por R$ 20. Quando chega ao destino final no Estado, fica quase o dobro do preço. A preocupação com o grão é justificada por representar 65% da ração animal — que responde por 70% do custo do frango vivo.

Indústrias priorizam estados autossuficientes

Com custos maiores de produção no Rio Grande do Sul, algumas indústrias passaram a priorizar investimentos em unidades localizadas em outros Estados, como o Paraná, autossuficiente, principalmente pela possibilidade de produzir a segunda safra do cereal — a safrinha, que tornou-se a maior em volume do Brasil.

— Nossa perda de competitividade é muito clara. Nos tornamos menos atrativos para ampliações de unidades instaladas e para investimentos em novas plantas — completa Kerber, acrescentando que a migração de investimentos só não é maior porque o Estado ainda mantém uma produção de aves e suínos significativa.

Buscando alternativas ao cenário, o ex-secretário da Agricultura Odacir Klein está desenvolvendo projeto em parceria entre o Instituto de Pesquisa Gianelli Martins e o Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal (Fundesa). O estudo sobre o abastecimento de milho no Estado inclui coleta de dados e sugestões de produtores e indústrias de carnes, fóruns, debates e publicação dos resultados.

— As informações iniciais coletadas mostram que, mesmo se houvesse autossuficiência na produção gaúcha de milho, haveria necessidade imediata do aumento da capacidade de armazenagem e de financiamento para a manutenção do grão a ser consumido gradativamente nas indústrias durante o ano — adianta Klein.

Rendimentos distintos

Com 23% da colheita concluída, a safra de milho no Rio Grande do Sul tem se mostrado irregular até agora.  As produtividades, segundo a Emater, estão variando entre 4 mil e 9 mil quilos por hectare. As diferenças são atribuídas à variação do tempo durante o desenvolvimento da cultura — apesar de o acumulado de chuva ter sido superior em relação a anos anteriores.

— Tivemos um intervalo de quase 20 dias sem chuva em dezembro, que impactou as lavouras implantadas mais tarde — afirma Ricardo Meneghetti, presidente da Apromilho-RS.

Em razão disso, a entidade prevê produtividade até 15% menor. Mesmo assim, o volume da safra deverá superar o do ano passado, quando a área semeada com a cultura foi a menor da história. Enquanto algumas lavouras acionaram o seguro do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), outras estão colhendo produtividades recordes.

— No geral, teremos uma safra boa. Em relação à área, já estancamos a queda. O desafio agora é voltar a crescer, com ajuda de políticas públicas voltadas ao setor — resume o dirigente.

No boletim conjuntural da Emater, divulgado na última quinta-feira (31), é detalhado que a colheita de primeira safra ganhou fôlego gracas às condições de tempo, favorecendo também a semeadura de milho do segundo plantio (safrinha), que segue em ritmo acelerado.

Fonte: Gauchazh

 

Deixe uma resposta