O “choque de realidade” do leite em pó

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Aumento de tarifa para compensar fim da sobretaxa do leite em pó, uma medida protecionista, mostra que agenda liberal de Paulo Guedes colide com interesses de grupos que apoiaram Bolsonaro.

Fernando Dantas

O imbróglio do fim da sobretaxa sobre o leite em pó importado, e a decisão do governo de compensá-lo subindo a tarifa, é um primeiro e muito emblemático “choque de realidade” em relação à plataforma superliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes.

“É difícil imaginar como a agenda da liberalização comercial pode avançar depois dessa estreia”, comenta Sandra Polónia Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), think-tank de política comercial no Rio de Janeiro.

Segundo Sandra, “se, no primeiro embate, que nem é uma proposta de liberalização comercial, mas simplesmente a implementação de um processo quase operacional de comércio exterior, isso vira uma disputa entre ministérios, fica muito claro a suscetibilidade do governo a lobbies e pressões setoriais”.

A economista se refere ao fato de que, como fica claro na reportagem de Idiana Tomazelli, Adriana Fernandes e Camila Turtellido Estado de São Paulo, o fim da sobretaxa antidumping foi uma mera decorrência de que o último estudo técnico do governo (a taxa tem que ser renovada de cinco em cinco anos) concluiu que não havia dumping.

Como pondera Sandra, “a nova equipe econômica, com seu viés liberal, provavelmente aproveitou o relatório do governo anterior e decidiu não renovar”.

Faltou combinar, entretanto, com Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), bancada que reúne mais de 200 parlamentares, e que evidentemente não é exatamente um grupo que o governo Bolsonaro queira maltratar no início da sua guerra pela aprovação da reforma da Previdência.

“Os ruralistas pressionaram para que o governo voltasse atrás, e nas entrelinhas chantagearam com o tema da reforma da Previdência – eu imagino que vá ser assim até a reforma ser aprovada ou não”, diz Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM.

Ribeiro acredita, diga-se de passagem, que uma reforma da Previdência com um grau de diluição aceitável deve ser aprovada ao fim e ao cabo, e que o maior risco a isto são trapalhadas que o próprio governo pode aprontar contra si mesmo.

Ribeiro, portanto, entende que a questão da sobretaxa do leite em pó tem que ser analisada numa perspectiva mais ampla, como uma postura de pragmático político, em que outros objetivos do governo Bolsonaro de maior importância, como a reforma da Previdência, têm que ser levados em conta.

Ainda assim, ele vê no episódio uma etapa do inevitável “choque de realidade” entre o que se vendeu na campanha e o que acontece no dia a dia concreto do governo.

“Fica evidente, e era previsível, que aquele purismo das posições do Bolsonaro e seu entorno, em diversos níveis, como a “carta branca” que o Paulo Guedes teria para implementar uma agenda ultraliberal, agora está se chocando com a realidade política do Congresso e com forças que apoiaram o presidente”, ele diz.

Dessa forma, Ribeiro prevê que os ruralistas também levarão a melhor na tentativa de Guedes de acabar com a isenção de contribuições previdenciárias de produtores rurais que exportam, conforme a mesma reportagem citada acima. Se o ministro da Economia prevalecesse, seriam mais R$ 7 bilhões de arrecadação por ano.

“O Temer tentou e não conseguiu e acho que os ruralistas provavelmente vão ganhar de novo”, diz o analista político.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Fonte: economia

 

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