O lugar onde 13 milhões de galinhas dependem da água de caminhões-pipa

Em região do Agreste no Sul de Pernambuco, todo avicultor tem que ter caminhão-pipa para buscar água a distâncias de até 100 km; o milho para as galinhas viaja mais de 1000 km.

Os avicultores costumam brincar dizendo que o frango nada mais é que um saco de milho com asas. E que bebe água. Então, um lugar que não tem milho nem água, naturalmente não vai ter frango, certo?
Errado. A região sul do Agreste pernambucano é a prova de que a determinação e o espírito empreendedor do nordestino desafiam essas impossibilidades.Principal polo avícola do Nordeste, São Bento do Una e região todo mês produz 6,3 milhões de frangos e 200 milhões de ovos (45% e 60% da produção estadual, respectivamente). Um visitante americano se surpreendeu com o cenário: “Estou vendo frango e ovo por toda parte, mas cadê o milho?”. A resposta do médico veterinário Paulo da Fonte causou ainda mais espanto. “Olha, milho a gente não produz. Agora o que não tem mesmo é água!”

Não é brincadeira nem força de expressão. A Associação de Avicultores de Pernambuco (Avipe) estima que 70% da água das granjas de São Bento do Una vêm de fora, percorrendo entre 40 e 100 km em cima de caminhões-pipa. O milho faz uma viagem bem mais longa, de cerca de 1000 km, da região conhecida como Matopiba (confluência de áreas produtivas de grãos do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). E já foi bem pior. “Até uns cinco anos atrás, íamos buscar milho a uma média de 3.000 km de distância, de Goiás, do Mato Grosso e até do Paraná. Com a autossuficiência do Nordeste na produção de soja e milho, a diferença de custo para com o Sul do País caiu de 40% para 15%. Nossa expectativa é emparelhar, mas não sabemos quanto tempo isso levará, depende de vários fatores, inclusive da melhoria da infraestrutura”, diz Edival Veras, vice-presidente da Avipe. O sonho dos avicultores é ver o milho do Matopiba chegar ao porto de Suape, no Recife, em trilhos da ferrovia Transnordestina, uma obra pela metade e atrasada há mais de dez anos.

A falta de chuva criou uma situação dramática para os avicultores do agreste até o início do ano passado. Foram sete anos consecutivos de estiagem. “Chegou um momento em que a gente já não queria receber o pagamento pelo ovo em dinheiro, mas em água”, conta o criador de codornas Tobias Aguiar de Souza. Ele diz que no auge da crise hídrica o preço do caminhão-pipa com 8 mil litros saltou de R$ 100 para até R$ 300, antes da chuva chegar com força em março de 2017, enchendo açudes e reservatórios.

Rildo Ferraz, catarinense radicado na região há 26 anos, e um dos maiores avicultores de São Bento do Una, diz que a “conta dágua” mensal alcançou R$ 350 mil reais, gasto necessário para manter a operação com 1,2 milhão de frangos, 200 mil galinhas poedeiras e 300 mil matrizes. “A água, que no Sul só dá trabalho para bombear para as granjas, aumentou aqui o nosso custo de produção em 20%”, observa Ferraz.

Outro avicultor são-bentense, Fernando Vilela precisa de 60 mil litros de água por dia para dar de beber a 140 mil galinhas poedeiras. Ele não pega uma gota sequer da companhia estadual de abastecimento (Compersa). Tudo é “importado” de poços artesianos de municípios vizinhos (a água de São Bento do Una é salobra). “Aqui, para ter granja, tem que ser dono de caminhão-pipa”, ressalva.

Neste ano, novamente tem chovido na região menos do que a média histórica anual de 650 mm, que já é baixa. “Quando chegar outubro, novembro e dezembro, você vai ver de 5 a 6 caminhões-pipa passando aqui na rodovia, a cada dez minutos, para abastecer a população e as aves”, assegura Vilela.

Fonte: Gazeta do Povo

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