Pesquisadores brasileiros estudam inclusão de insetos na alimentação animal

Dentre as pesquisas, uma desenvolvida pela Embrapa utilizou insetos na nutrição de aves

, Fernando Sinimbu (Embrapa Meio-Norte)
Pesquisa utilizou tenébrio (foto), grilo preto e mosca soldado negro Fernando Sinimbu (Embrapa Meio-Norte)

Por Anderson Oliveira

A alimentação de planteis cada vez maiores de aves e suínos tem se tornado um desafio a cada ano devido às limitações das safras de milho e soja. Embora em 2017 o Brasil tenha colhido safras recordes dessas proteínas vegetais, o mesmo não ocorreu no ano passado. Como resultado, houve redução de oferta e aumento de preço e avicultores e suinocultores brasileiros tiveram aumento de custo. O problema pontual, no entanto, lança dúvidas sobre como o Brasil pode se tornar o maior produtor de carne de frango e um dos principais de carne suína nos próximos anos diante da necessidade de aumentar também as produções de milho e soja. A solução que se apresenta pode estar nos insetos. Pelo mundo, empresas já têm feito investimentos nesse sentido. Em uma joint venture, a Bühler e a Protix devem inaugurar neste ano uma fábrica voltada à produção de insetos – especificamente, larvas da mosca soldado negra – para uso em ração animal. Os estudos e investimentos para o uso dessas proteínas para a alimentação de aves e suínos, contudo, têm crescido não apenas fora do Brasil. A Embrapa Meio-Norte e pesquisadores de diferentes universidades já estão se debruçando sobre o tema. A cultura avessa ao uso de insetos na alimentação e a falta de incentivos, contudo, são barreiras enfrentadas no país.

Cientistas brasileiros e de Camarões, na África, dedicaram-se por três anos a uma pesquisa que buscou utilizar insetos na nutrição de aves e peixes. A conclusão a que chegaram foi de que é possível substituir gradualmente a ração convencional de peixes e aves, à base de farinha de peixe e farelo de soja, por uma dieta equilibrada com insetos. O trabalho empregou insetos como o besouro tenébrio (Tenebrio molitor), o grilo-preto (Gryllus assimilis) e a mosca soldado negro (Hermetia illucens) como alimentos alternativos para aves e peixes criados em cativeiro na agricultura familiar. A criação de insetos na propriedade ainda pode ser integrada à produção de fertilizantes por meio da decomposição de matéria orgânica realizada por suas larvas. É um processo circular, o que garante a sustentabilidade de toda a produção.

A mosca soldado negro, que foi a espécie trabalhada na pesquisa, tem um ciclo de vida de 15 dias. Da eclosão dos ovos, passando pela fase de larvas – que podem atingir até 27 milímetros – até o ponto de abate, seu desenvolvimento é muito rápido. Segundo Janaína Kimpara, da Embrapa Meio-Norte, o inseto tem importância ambiental e econômica. Sua larva é considerada uma grande recicladora de resíduos orgânicos, ela diz. “Em até 15 dias, aproximadamente 45 mil larvas consomem 108 quilos de esterco suíno, que é um problema ambiental e econômico. Os resíduos desse consumo servem para a fertilização de plantações”, explica.

A pesquisadora da Embrapa Meio-Norte, Janaína Kimpara, que coordenou a pesquisa no Brasil, afirma que na dieta de frango de corte e na tilápia foi incluída um nível máximo de 15% do ingrediente proteico por larva de mosca soldado negro. Na pesquisa localizada na África, foram utilizadas 60% e o resultado foi mais positivo do que com a ração convencional. “No Brasil utilizamos pouco e a literatura mostra que podemos incluir mais”, diz. A presença da quitina na carapaça dos insetos, que não é digestível, foi um fator limitante para a inclusão de um percentual maior da proteína de insetos na alimentação dos animais.

“Para alimentar frangos, os insetos são abatidos em água fervente, secos em estufa ou micro-ondas e depois moídos. Em seguida, a farinha é misturada ao farelo de soja ou milho moído, mistura de vitaminas e minerais e disponibilizado para o consumo das aves”, conta Kimpara.

O fator preço é um dos desafios para que a proteína de inseto seja viável aos produtores. Isso porque o Brasil é um grande produtor de farelo de soja, o que torna o preço mais acessível. “A gente tem que ter escala de produção muito grande para competir com a soja”, diz. A ideia, dessa forma, é dar continuidade às pesquisas experimentando níveis maiores de proteína de inseto na alimentação dos animais. “Queremos fazer parcerias com os produtores e colocar essa ração para avaliar em uma escala maior”, acrescenta Kimpara. Para pequenos produtores, segundo ela, compensaria ter essa produção em suas propriedades. No Brasil, a produção de farinha de inseto – feita a partir de tenébrio e grilo –  ainda está focada na criação de aves de canto ou iguanas. “O mercado paga muito por esse tipo de produto”, conta.

A mosca soldado negro se alimenta de resíduos orgânicos, de modo que os produtores podem produzir esses insetos. “Resolveria dois problemas, que seriam os resíduos (das granjas), utilizados para alimentar as moscas, e partir delas a produção de farinha para acrescentar à ração”, explica Janaína Kimpara. De acordo com ela, ainda estamos distantes de ter uma produção de insetos de longa escala para atender aos grandes produtores da avicultura.

Na África, já existe uma grande produção de insetos, assim como na Europa existem iniciativas importantes nesse sentido. “No Brasil, tem surgido grande procura para tentar produzir isso em grande escala e a tendência é o uso em alimentação de animais em grande escala”. Ela acredita que no médio prazo já haverá alguma empresa no país produzindo esse tipo de insumo em grande escala.

 

SUBSTITUIÇÃO TEVE BOM DESEMPENHO

O uso de farinha de insetos na nutrição de aves chegou a ter resultados até melhores que os verificados com o mesmo percentual de 15% de farelo de soja em um dos experimentos, de acordo com Leilane Barros, médica veterinária, especialista em nutrição de aves e professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Segundo ela, inicialmente a pesquisa procedeu a avaliação da composição química e digestibilidade dos nutrientes três farinhas de insetos: tenébrio, larva da mosca soldado negro e ninfas de gafanhoto. “Verificamos que principalmente a farinha de tenébrio e larva da mosca soldado negro possuem composição química e digestibilidade dos nutrientes semelhante a de vários ingredientes já utilizados na alimentação de aves”, diz. Já a farinha de ninfa de gafanhoto apresentou uma digestibilidade um pouco menor, provavelmente, em função do maior teor de quitina – que está presente na carapaça dos insetos.

Em seguida, explica a pesquisadora, foi feita a substituição do farelo de soja da ração por até 15% da farinha da larva da mosca soldado negro. Em uma das duas dissertações que compuseram o estudo, não houve diferença no desempenho dos animais. Em outra, contudo, as aves tiveram desempenho melhor. Na etapa atual da pesquisa, segundo ela, estão sendo feitas análises de digestibilidade das dietas, qualidade de carne e resistência óssea.

“A partir dos trabalhos realizados, podemos afirmar que a viabilidade nutricional é adequada para inclusão em dietas para aves”, assegura Leilane. Ela pondera, no entanto, que, em função do elevado custo das farinhas de inseto no momento e da baixa produção desde insumo em larga escala, sua utilização na alimentação de aves ainda demorará alguns anos.

A pesquisadora aponta que, se considerar a produção total de rações para aves, que em 2017 foi 38,5 milhões de toneladas, conforme dados do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), seriam necessários de mais de 5,7 milhões de toneladas de farinha de insetos só para incluir 15% na alimentação de aves. “Ou seja, a partir do momento que for possível a redução do custo de produção da farinha de inseto, será possível sua utilização em larga escala na alimentação animal”, afirma.

“Quando falamos assim, até parece um futuro distante, mas se pensarmos que a algumas décadas atrás não se cogitava uso de aminoácidos sintéticos de alto custo de produção”, comenta Leilane Barros. Segundo ela, hoje estes componentes são uma realidade presente nas rações de não ruminantes.

 

BRASIL AINDA RESISTE AOS INSETOS

Apesar dos avanços e de pesquisas iniciadas em algumas universidades, a cultura resistente aos insetos e a falta de incentivos são obstáculos para o crescimento desse mercado no Brasil. A avaliação é de Regis Kamimura, doutor Ciência Animal, professor da Universidade Federal de Uberlândia e criador da Intech Brasil – Insect Technologies, startup voltada à produção de insetos para uso na nutrição humana e animal. “Existe uma grande resistência aos insetos comestíveis e é questão de cultura. Estamos num país tropical, não temos a tradição desse consumo, como na Ásia, no México e outros países que usam insetos na alimentação há milhares de anos”, afirma.

Outro problema apontado pelo pesquisador é a falta de incentivos pelos governos estaduais e o governo federal. “Eles não têm olhos para esse nicho, que são os insetos comestíveis”, avalia Kamimura. Segundo ele, a produção de insetos para a produção de proteína animal seria a mais sustentável. Além disso, o inseto utilizado para isso, que seria a mosca soldado negro, é uma grande limpadora de resíduos. “Essa mosca contribuiria na limpeza e redução de resíduos. Seria uma oportunidade de utilizar ela na nutrição animal e reduzir os danos ambientais dessa produção”, comenta.

Kamimura fez um levantamento dos investimentos feitos no exterior para pesquisa e produção de insetos voltados ao consumo. Empresas nos Estados Unidos, Canadá, África do Sul, França e Holanda já realizaram transações milionárias nesse segmento. O pesquisador afirma que não é preciso prever quando esse cenário se desenhará no Brasil, mas existe uma perspectiva positiva. Segundo ele, nos últimos dois anos o número de empresas e pessoas com perfil profissional focado na área de insetos têm crescido.

Fonte: Suinocultura Industrial

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